quinta-feira

La Moustache

(The way back machine I)


A maior perversão do filme 'La Moustache', para além do incompreensível título português "amor suspeito"é , na minha opinião, a adaptação do romance do próprio Carrère conseguir apresentar-nos a fragilidade da identidade e da sanidade, a irrupção da paranóia, e a ameaça do espaço seguro (e securizante) dos nossos passos, relações e gestos mais familiares, da mesma forma que um soberbo episódio da "The Twilight Zone" , e que como tal, independentemente da plausibilidade dos pesadelos dos protagonistas, dificilmente os encaramos como nossos.


Com efeito, o realizador consegue distanciar-nos da loucura , ao exibir magistralmente a lógica realistica das explicações antagónicas que cada um dos elementos do casal detém para os mesmos acontecimentos ambíguos, cabendo aos espectadores as considerações sobre a realidade /ilusão que os factos encerram. O realizador aguça-nos as incertezas quanto ao carácter das personagens, consciente que, tal como Marc (Vincent Lindon) que, no desfecho, abdica perfidamente da sua verdade (no romance, o protagonista suicida-se), também nós já questionámos a validade das nossas percepções.

Emmanuel Carrère sabe que também nós, espectadores, nos cruzámos directa ou indirectamente com a insanidade e destrutividade, até então bem ocultas numa fachada de equilíbirio mental e correcção moral de pessoas que julgámos próximas; que todos nós desejamos ardentemente que as aparências correspondam à verdade das coisas para que assim possamos agarrar-nos à fiabilidade das nossas percepções; que já ignorámos as incoerências daqueles que sabem comportar-se como se tivessem sentimentos, e que apesar de desprovidos de qualquer capacidade empática, são - como diria Arno Gruen - "apresentadores (exímios) da consciência" ( dramatizam a ideia que têm de amor, da ternura, da raiva , do remorso e da vergonha, mas não as emoções realmente sentidas); sabe que alguns de nós nos 'deitámos com o Diabo', e que a dada altura optámos, perversamente, por também fechar os olhos.





O Cisne Negro (2010)



O Cisne Negro (2010) é o relato vívido da terrífica história de Nina, papel magistralmente interpretado por Natalie Portman, uma jovem bailarina que se prepara para interpretar o papel da Rainha, numa  produção do bailado " O Lago dos Cisnes". Apesar de ter conseguido alcançar o estatuto de solista da companhia, Nina é-nos apresentada como uma jovem insegura, frágil e muito vulnerável, facto a que não é alheia a (omni)presença de uma mãe intrusiva que culpa a filha pelo seu fracasso profissional , e , narcisicamente, lhe exige que alcance o sucesso que lhe escapou, por dela ter engravidado.

No bailado, a Rainha dos Cisnes deverá ser capaz de interpretar extremos: a dócil princesa Odette, mais parecida com a delicada Nina, mas também,  Odile, cisne negro transformada pelo mago numa vil sedutora capaz de levar o Príncipe a quebrar os votos e juras de amor prometidos à inocente Odette.

 
No filme, a actriz Mila Kunis, encarna o papel da outra solista, mas sensual e espontânea, que aparenta querer roubar o protagonismo de Nina - num paralelo com a história de Odette-Odile, em que os conflitos, - reais e imaginados- se  ampliam à medida que a protagonista da companhia se esforça, arduamente, por encarnar o cisne negro, e onde a hábil realização de Darren Aronofsky permite que a dúvida sobre se esta disputa se desenrola entre as duas personagens reais, ou se opõe duas facetas clivadas da protagonista, , acompanhe e entusiasme os espectadores.

A temática dissociativa, tão presente na literatura e no cinema, é também em O Cisne Negro, uma metáfora da incapacidade de Nina em integrar as suas projecções agressivas, por falta de acesso a uma relação continente que a conforte e proteja da malignidade de figuras parentais, assumidas precocemente pela mãe e, mais tarde, pelo coreógrafo , director da companhia de bailado.



The Black Swan (2010), IMDB

quarta-feira

A fertilidade diminui a auto-estima ?

As mulheres referem, frequentemente, a menstrução como fonte de grande parte dos seus males. De acordo com um estudo recente, poderiam fazer o mesmo com a ovulação!

Duas investigadoras* decidiram avaliar a auto-estima das mulheres durante o seu ciclo menstrual e verificaram, contra as suas expectativas, que a mesma diminui com o aumento da fertilidade.

Assim, e estranhamente, esta pesquisa revela-nos que é durante o período da ovulação  - em que são mais atraentes aos olhos dos homens, e quando do ponto de vista biológico é mais importante encontrar um parceiro - que as mulheres menos confiam na sua imagem, e nas suas capacidades de sedução.

Este fenómeno - observado durante o ciclo menstrual- acontece, igualmente ao longo da vida. Senão vejamos : É durante a infância - idade em que a capacidade reprodutiva ainda se encontra ausente- que o género feminino mais acredita em si, 'auto-estima' que esmorece na adolescência para recuperar alento já na menopausa.

De um ponto de vista evolucionista, este facto poderá motivar um maior esforço de sedução por parte das mulheres nos períodos mais férteis, em que tais diligências se afiguram mais críticas.

Resta, contudo, verificar se a pílula - que bloqueia a ovulação - contribui para a manutenção de uma auto-estima constante, e se , por isso, se associa a um certo bem-estar psicológico.




* Do women feel worse to look their best ? Testing the relationship between self-esteem and fertility status across the menstrual cycle. Hill, S.E, Durante, K.M. In Personality and Social Psychology Bullettin

quinta-feira

Correio de Leitores - " Será o meu marido viciado em cibersexo ?"

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Relativamente à questão de uma leitora, que encontrou o marido várias vezes em chats de sexo na internet , e  me questiona ‘’ se o seu marido estará viciado” , opto por descrever alguns dos problemas actuais com que o ‘’cibersexo’’ nos confronta.



No entanto, e através do simples relato de que o marido desta leitora acedeu por várias vezes a sites de cibersexo, é impossível incluí-lo nesta nova categoria de adictos, pelo que lhe sugiro, e antes de tudo o mais, o estabelecimento de uma comunicação franca e aberta com o seu marido sobre a vossa relação, e as verdadeiras motivações para aceder a esses conteúdos. Paralelamente, serão aqui indicados, de forma muito geral, alguns sintomas normalmente presentes neste transtorno, que poderão ajudá-la a  clarificar o seu receio.


É inegável que os ’psis’’ de hoje estão a ser confrontados nos seus consultórios com um número cada vez maior de comportamentos sexuais compulsivos, devido também à elevada dependência, gerada pelo cibersexo, e que esta afecta indivíduos cada vez mais jovens - há, inclusive, estudos que indicam a existência de muitos pré- adolescentes completamente ‘viciados’ em sítios de sexo virtual.

Segundo o investigador Alvin Cooper *, por ser anónimo e acessível, o cibersexo oferece aos seus utilizadores um leque diversificado de opções que podem rapidamente produzir sérias consequências negativas. Num estudo que envolveu cerca de nove mil internautas, 17 % reportaram problemas que atribuíram ao sexo virtual. Com efeito, indivíduos que sem a internet poderiam nunca vir a desenvolver problemas sexuais passíveis de tratamento, encontram-se, nos dias de hoje, com graves disfuncionalidades que , quando afectam o próprio e/ou aqueles com quem se relacionam, carecem de terapêutica adequada. Tal acontece, fundamentalmente, porque o mundo do sexo virtual permite, ultrapassar facilmente as próprias regras, aceder ao não-resolvido, e agir fantasias sexuais que, sem esta oportunidade, poderiam não chegar a efectivar-se comportamentalmente.

Por outro lado, um dos seus  grandes inconvenientes advém do facto de que, e à semelhança do que acontece com algumas drogas como o crack, logo nas primeiras utilizações, o cibersexo, pode tornar dependentes alguns dos seus utilizadores, e deste modo,  indivíduos que, à partida, não se encaixariam no ''perfil '' típico de um adicto, estão a tornar-se viciados em cibersexo.

Com efeito, a internet permite uma nova liberdade sexual, e catalisa um estado de alheamento de si, propício à ocorrência dos ‘’highs’’ sexuais. Rapidamente se seguem a preocupação, a obsessão, e a compulsão Uma vez adicto em sexo virtual, a “escalada” é quase inevitável, e como tal, aumenta a necessidade da quantidade e novidade É então que a probabilidade de comportamentos sexuais de risco aumenta dramaticamente .

Esta “escalada” pode tornar-se uma verdadeira obsessão, com a emergência de novos padrões comportamentais que rapidamente se fixam. São prováveis, igualmente, a ocorrência de uma regressão relacional - afastamento e perda do interesse sexual com o parceiro habitual – caso exista- , e a catalisação de comportamentos aditivos e compulsivos prévios, com emergência de novos comportamentos sexuais ‘’off-line’’.

De assinalar, que grande percentagem de clientes que a nós recorrem, afectados por estas problemáticas não são os dependentes de sexo virtual , mas sim os seus parceiros, que procuram ajuda por se sentirem ‘’traídos ‘’, “confusos”, “deprimidos”, e incapazes de competir com a internet.

Frequentemente, os sinais de traição internáutica incluem :

• Mudança nos padrões de sono e exigências desabituais de privacidade.

• Ignorar de responsabilidades.

• Mudanças de personalidade e mentira

• Perda de interesse pelo sexo , na relação

O envolvimento dos membros da família no tratamento desta, como aliás de outras, dependências, é muito benéfico. Começam inclusive a surgir,  à semelhança do que acontece com os alcoólicos , grupos de  auto-ajuda para co-dependentes de sexo virtual.



* Cooper, A., Delmonico, D., and Burg, R. (2000). “Cybersex users and abusers: New findings and implications.” Sexual Addition and Compulsivity: The Journal of Treatment and Prevention, 7, 59-74.

 
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