quinta-feira
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humor
O Cisne Negro (2010)
O Cisne Negro (2010) é o relato vívido da terrífica história de Nina, papel magistralmente interpretado por Natalie Portman, uma jovem bailarina que se prepara para interpretar o papel da Rainha, numa produção do bailado " O Lago dos Cisnes". Apesar de ter conseguido alcançar o estatuto de solista da companhia, Nina é-nos apresentada como uma jovem insegura, frágil e muito vulnerável, facto a que não é alheia a (omni)presença de uma mãe intrusiva que culpa a filha pelo seu fracasso profissional , e , narcisicamente, lhe exige que alcance o sucesso que lhe escapou, por dela ter engravidado.
No bailado, a Rainha dos Cisnes deverá ser capaz de interpretar extremos: a dócil princesa Odette, mais parecida com a delicada Nina, mas também, Odile, cisne negro transformada pelo mago numa vil sedutora capaz de levar o Príncipe a quebrar os votos e juras de amor prometidos à inocente Odette.
No filme, a actriz Mila Kunis, encarna o papel da outra solista, mas sensual e espontânea, que aparenta querer roubar o protagonismo de Nina - num paralelo com a história de Odette-Odile, em que os conflitos, - reais e imaginados- se ampliam à medida que a protagonista da companhia se esforça, arduamente, por encarnar o cisne negro, e onde a hábil realização de Darren Aronofsky permite que a dúvida sobre se esta disputa se desenrola entre as duas personagens reais, ou se opõe duas facetas clivadas da protagonista, , acompanhe e entusiasme os espectadores.
A temática dissociativa, tão presente na literatura e no cinema, é também em O Cisne Negro, uma metáfora da incapacidade de Nina em integrar as suas projecções agressivas, por falta de acesso a uma relação continente que a conforte e proteja da malignidade de figuras parentais, assumidas precocemente pela mãe e, mais tarde, pelo coreógrafo , director da companhia de bailado.
The Black Swan (2010), IMDB
quarta-feira
A fertilidade diminui a auto-estima ?
As mulheres referem, frequentemente, a menstrução como fonte de grande parte dos seus males. De acordo com um estudo recente, poderiam fazer o mesmo com a ovulação!
Duas investigadoras* decidiram avaliar a auto-estima das mulheres durante o seu ciclo menstrual e verificaram, contra as suas expectativas, que a mesma diminui com o aumento da fertilidade.
Assim, e estranhamente, esta pesquisa revela-nos que é durante o período da ovulação - em que são mais atraentes aos olhos dos homens, e quando do ponto de vista biológico é mais importante encontrar um parceiro - que as mulheres menos confiam na sua imagem, e nas suas capacidades de sedução.
Este fenómeno - observado durante o ciclo menstrual- acontece, igualmente ao longo da vida. Senão vejamos : É durante a infância - idade em que a capacidade reprodutiva ainda se encontra ausente- que o género feminino mais acredita em si, 'auto-estima' que esmorece na adolescência para recuperar alento já na menopausa.
De um ponto de vista evolucionista, este facto poderá motivar um maior esforço de sedução por parte das mulheres nos períodos mais férteis, em que tais diligências se afiguram mais críticas.
Resta, contudo, verificar se a pílula - que bloqueia a ovulação - contribui para a manutenção de uma auto-estima constante, e se , por isso, se associa a um certo bem-estar psicológico.
* Do women feel worse to look their best ? Testing the relationship between self-esteem and fertility status across the menstrual cycle. Hill, S.E, Durante, K.M. In Personality and Social Psychology Bullettin
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Investigação
quinta-feira
Correio de Leitores - " Será o meu marido viciado em cibersexo ?"
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Relativamente à questão de uma leitora, que encontrou o marido várias vezes em chats de sexo na internet , e me questiona ‘’ se o seu marido estará viciado” , opto por descrever alguns dos problemas actuais com que o ‘’cibersexo’’ nos confronta.
No entanto, e através do simples relato de que o marido desta leitora acedeu por várias vezes a sites de cibersexo, é impossível incluí-lo nesta nova categoria de adictos, pelo que lhe sugiro, e antes de tudo o mais, o estabelecimento de uma comunicação franca e aberta com o seu marido sobre a vossa relação, e as verdadeiras motivações para aceder a esses conteúdos. Paralelamente, serão aqui indicados, de forma muito geral, alguns sintomas normalmente presentes neste transtorno, que poderão ajudá-la a clarificar o seu receio.
É inegável que os ’psis’’ de hoje estão a ser confrontados nos seus consultórios com um número cada vez maior de comportamentos sexuais compulsivos, devido também à elevada dependência, gerada pelo cibersexo, e que esta afecta indivíduos cada vez mais jovens - há, inclusive, estudos que indicam a existência de muitos pré- adolescentes completamente ‘viciados’ em sítios de sexo virtual.
Segundo o investigador Alvin Cooper *, por ser anónimo e acessível, o cibersexo oferece aos seus utilizadores um leque diversificado de opções que podem rapidamente produzir sérias consequências negativas. Num estudo que envolveu cerca de nove mil internautas, 17 % reportaram problemas que atribuíram ao sexo virtual. Com efeito, indivíduos que sem a internet poderiam nunca vir a desenvolver problemas sexuais passíveis de tratamento, encontram-se, nos dias de hoje, com graves disfuncionalidades que , quando afectam o próprio e/ou aqueles com quem se relacionam, carecem de terapêutica adequada. Tal acontece, fundamentalmente, porque o mundo do sexo virtual permite, ultrapassar facilmente as próprias regras, aceder ao não-resolvido, e agir fantasias sexuais que, sem esta oportunidade, poderiam não chegar a efectivar-se comportamentalmente.
Por outro lado, um dos seus grandes inconvenientes advém do facto de que, e à semelhança do que acontece com algumas drogas como o crack, logo nas primeiras utilizações, o cibersexo, pode tornar dependentes alguns dos seus utilizadores, e deste modo, indivíduos que, à partida, não se encaixariam no ''perfil '' típico de um adicto, estão a tornar-se viciados em cibersexo.
Com efeito, a internet permite uma nova liberdade sexual, e catalisa um estado de alheamento de si, propício à ocorrência dos ‘’highs’’ sexuais. Rapidamente se seguem a preocupação, a obsessão, e a compulsão Uma vez adicto em sexo virtual, a “escalada” é quase inevitável, e como tal, aumenta a necessidade da quantidade e novidade É então que a probabilidade de comportamentos sexuais de risco aumenta dramaticamente .
Esta “escalada” pode tornar-se uma verdadeira obsessão, com a emergência de novos padrões comportamentais que rapidamente se fixam. São prováveis, igualmente, a ocorrência de uma regressão relacional - afastamento e perda do interesse sexual com o parceiro habitual – caso exista- , e a catalisação de comportamentos aditivos e compulsivos prévios, com emergência de novos comportamentos sexuais ‘’off-line’’.
De assinalar, que grande percentagem de clientes que a nós recorrem, afectados por estas problemáticas não são os dependentes de sexo virtual , mas sim os seus parceiros, que procuram ajuda por se sentirem ‘’traídos ‘’, “confusos”, “deprimidos”, e incapazes de competir com a internet.
Frequentemente, os sinais de traição internáutica incluem :
• Mudança nos padrões de sono e exigências desabituais de privacidade.
• Ignorar de responsabilidades.
• Mudanças de personalidade e mentira
• Perda de interesse pelo sexo , na relação
O envolvimento dos membros da família no tratamento desta, como aliás de outras, dependências, é muito benéfico. Começam inclusive a surgir, à semelhança do que acontece com os alcoólicos , grupos de auto-ajuda para co-dependentes de sexo virtual.
* Cooper, A., Delmonico, D., and Burg, R. (2000). “Cybersex users and abusers: New findings and implications.” Sexual Addition and Compulsivity: The Journal of Treatment and Prevention, 7, 59-74.
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correio de leitores
segunda-feira
"Piantados e passados" (Julio Cortázar)
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A palavra piantado é uma das contribuições culturais do Rio de la Plata ; os leitores a norte do paralelo 32 tomarão nota que vem de «piantare», que em italiano é mudar de ares, acepção ilustrada por um contundente tango onde também se ouve o ruído das correntes quebradas: Pianté de la noria...' Se fue mi mujer! *1
A palavra piantado é uma das contribuições culturais do Rio de la Plata ; os leitores a norte do paralelo 32 tomarão nota que vem de «piantare», que em italiano é mudar de ares, acepção ilustrada por um contundente tango onde também se ouve o ruído das correntes quebradas: Pianté de la noria...' Se fue mi mujer! *1
Note-se que em espanhol aquele que «foi» é passado, termo que também tem a acepção de «chanfrado»; ao importar e impor os piantados em detrimento dos passados, reiteramos uma das mais caras aspirações dos argentinos que, como toda a gente sabe, consiste em substituir uma palavra espanhola por outra italiana sempre que isso for possível, e sobretudo quando não o é. Por exemplo, eu, quando era muito pequeno, era um passado, mas por volta dos doze anos alguém me chamou piantado, e a família adoptou o neologismo conforme o saudável princípio acima descrito. Obviamente que o interior do país está menos exposto a estas substituições terminológicas, e é justo dizer que se a capital se orgulha de uma percentagem considerável de piantados, as nossas províncias continuam por outro lado repletas de passados; a querela linguística não tem qualquer importância face à esperança de que a soma de passados e piantados chegue algum dia a contrariar a influência de sensatos, que nos têm conduzido até hoje da forma que se sabe.
A diferença entre um louco e um piantado está no facto de o louco tender a crer-se sensato ao passo que o piantado, sem reflectir sistematicamente no assunto, sente que os sensatos são demasiado almecegueira simétrica e relógio suíço, o dois depois do um e antes do três, tudo isto sem abrir caminho ao juízo, porque um piantado nunca é um ser bem pensante, nem a boa consciência, nem o juíz de turno; este sujeito continua o seu caminho passeio abaixo em contramão, de forma que quando toda a gente trava ao avistar o sinal vermelho, ele carrega no acelerador e Deus te livre.
Para se compreender um louco é conveniente ser-se psiquiatra, ainda que isso nunca chegue; para compreender um piantado, basta o sentido de humor. Todo o piantado é cronópio, isto é , o humor substitui grande parte dessas faculdades mentais que fazem o orgulho de um prof. ou de um dr. cuja única saída, no caso de elas lhes falharem, é a loucura, ao passo que ser piantado não é saída nenhuma, mas ponto de entrada. Sempre levei os piantados muito a sério porque eles são o heteróclito das pautas habituais, a terra do sal, húmus de futuro que se incorpora misteriosamente nessa substância cristalina constituída pelo cloreto de sódio, de cor comummente branca e sabor acre característico, que pode até ser muito útil para a sopa e para os estufados mas que tem algo de estéril, de aborrecido, de vale da morte.*(...)
*1 Refrão do tango Victoria, de Enrique Santos Discépolo
in A volta ao dia em 80 mundos, Julio Cortázar , Cavalo de Ferro Editores (2009)
*1 Refrão do tango Victoria, de Enrique Santos Discépolo
in A volta ao dia em 80 mundos, Julio Cortázar , Cavalo de Ferro Editores (2009)
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